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Fórum Social Mundial reclamou acção urgente contra a crise

O Fórum Social Mundial decorreu em Belém do Pará, cidade pobre junto à selva amazónica, com cerca de cem mil participantes, quase dois mil painéis e seminários de discussão e oitocentos jornalistas de todo o mundo. João Romão, membro da Cultra, integrou a comitiva da Transform no Fórum e escreveu diariamente para o Esquerda.net. Disponibilizamos uma compilação desses textos.


Texto de João Romão

Fórum Social Mundial reclamou acção urgente contra a crise

Tudo parece excessivo para a cidade: há pessoas instaladas em barcos ou casas particulares, com condições que estavam muito longe do que imaginaram quando fizeram as marcações, com meses de antecedência mas a milhares de quilómetros de distância. Os jovens que optaram pelo acampamento têm que enfrentar as chuvas, curtas mas torrenciais, da região tropical. Dizem os habitantes de Belém que a cidade está diferente esta semana: a polícia foi visivelmente reforçada e vigia os locais onde se realiza o Fórum, o centro da cidade e os seus principais acessos. São frequentes as operações stop a automóveis, e até autocarros, para revistar os seus ocupantes.

As Universidades que concentram a maior parte das actividades do FSM ficam numa zona periférica de Belém, de casas precárias e pobres, onde a polícia controla a habitual insegurança. É muito raro encontrar alguém que fale inglês ou francês nas lojas ou nos restaurantes, quando a cidade está repleta de cidadãos de todo o mundo. Sempre que tiro uma fotografia, mesmo dentro de um autocarro público, há alguém que me alerta para os perigos de exibir uma máquina fotográfica.

Nas ruas de Belém encontram-se carroças puxadas por burros, muito magros, ou por homens, que transportam frutas, pneus, caixas de cartão ou grades com garrafas vazias. À noite, muitas ruas estão ocupadas pela prostituição, feminina, masculina ou transexual e os táxis evitam parar nos sinais vermelhos. O povo tem os estômagos inchados pela má nutrição, feita de muito arroz, massa, feijão e farinha de mandioca. Para o padrão europeu, e mesmo para o português, o peixe frito (muito fresco), as variadas e maravilhosas frutas, como o açai, e até o típico e delicioso pato com molho tucupi, têm preços francamente acessíveis. Na sua pobreza, o povo de Belém mostra o seu contentamento por ver tantos visitantes na sua cidade, apesar das manifestas dificuldades de comunicação.

A Marcha de abertura do Fórum

As docas de Belém do Para são o centro da vida social da cidade: são os cargueiros que trazem e levam contentores de mercadorias, os barcos para passeios turísticos na baía, os bares e restaurantes modernos e sofisticados como em quaisquer reconvertidas docas europeias, lado a lado com os precários bares populares de apoio aos mercados, o municipal e o de "Ver o Peso", onde se encontram as iguarias amazónicas que condimentam a gastronomia local, as frutas, o peixe seco, os camarões e as moscas, que andam por todo o lado.

A Marcha que assinalou a abertura do Forum Social Mundial partiu da zona das docas, o ponto de encontro dos cem mil visitantes que se instalaram numa cidade onde muitas vezes manda a natureza: o começo da Marcha estava previsto para as 15h30, exactamente na hora da chuva, brutal e tropical, regular no seu horário. Afinal, a Marcha só começaria uma hora depois, terminada a chuva.

Os cem mil participantes no Fórum atravessaram a cidade, bloquearam o transito, trouxeram para as janelas a população local e mobilizaram um enorme aparato policial, intimidativo mas que se limitou a observar um extraordinário desfile com todas as reivindicações sociais do planeta, todos os sons da militância solidária, toda a alegria do desejo de transformação.
Mais de mil e duzentos índios vindos dos nove países que integram a bacia amazónica emprestaram à festa a sua marca distintiva e exigiram o respeito pelos seus direitos: à saúde, à educação, ao ecossistema, à cultura milenar que aprende com o presente e também quer disputar o futuro.

Todas as agendas se cruzam neste Fórum: o combate contra o trabalho escravo nos países pobres ou contra a precariedade no mundo desenvolvido, a defesa da educação e dos serviços públicos de saúde, os movimentos sindicais, a luta pela emancipação feminina, o direito ao aborto, o combate ao trafico de pessoas, a defesa de culturas indígenas e saberes tradicionais, a afirmação de uma economia solidaria que se afirme como alternativa ao capitalismo, o combate à exploração infantil: a defesa da dignidade humana em todas as suas dimensões marcam o dia-a-dia deste Fórum, onde se cruzam as ambições transformadoras dos movimentos sociais do planeta.

Quando acabou a Marcha, numa gigantesca concentração na Praça do Operário, a cidade estava congestionada. Os visitantes foram regressando às docas. Em varias praças do centro foram instalados palcos para as iniciativas culturais que animarão Belém esta semana. A festa do Fórum também começou.

Amazónia, património de todos

Depois da gigantesca Marcha que assinalou o arranque do Fórum Social Mundial, começaram na quarta-feira as mais de duas mil sessões de debate que compõem o seu programa, distribuídas por grandes grupos temáticos que assinalam as grandes reivindicações dos movimentos sociais do planeta.

Estes objectivos agregadores passam pela exigência da Paz e o combate ao militarismo, pelo combate a todas as formas de discriminação, pela defesa da auto-determinação e dos direitos dos povos, pela defesa da natureza e dos ecossistemas ou de uma economia democratizada, emancipatória, sustentável e solidária. As discussões em torno da democracia económica e social dividem-se em seis grandes temas, que incluem a libertação do mundo do domínio do capital, o acesso universal e sustentável aos bens comuns da humanidade e da natureza, a democratização do conhecimento, cultura e comunicação, a defesa dos direitos à alimentação, saúde, educação, habitação, emprego, trabalho digno e comunicação, a construção e ampliação de estruturas e instituições políticas e económicas democráticas e participadas.

A crise económica mundial e a defesa da Amazónia acabam por ser os dois tópicos de discussão predominantes, num Fórum onde nada funciona facilmente: o calor húmido tropical faz toda a gente transpirar desde as oito da manhã, os congestionados acessos aos vários locais onde há actividades obrigam a demorar horas para se chegar e a fraca informação sobre os locais dos debates obrigam os participantes a uma penosa circulação pelo recinto. Em compensação, as iguarias amazónicas deliciam os participantes (hoje arrisquei o tacapá, uma espécie de sopa viscosa que recusaria noutras circunstâncias e evito descrever com mais pormenores) e todos os dias se conhecem novos sumos de frutos amazónicos (provei hoje os maravilhosos cupuaçu e tabereba).

O primeiro dia de debates foi especialmente dedicado à Amazónia, cuja defesa e valorização é assumida por largas dezenas de organizações. A defesa do ecossistema amazónico e da sua bio-diversidade é apenas uma das componentes dessas reivindicações, que também incluem a defesa dos serviços públicos ou o direito à saúde, à educação ou à protecção social. O conceito de socio-diversidade tvai ganhando centralidade nos debates, cada vez mais preocupados com a defesa dos saberes tradicionais, o conhecimento sobre os recursos e a sua utilização, que foram estruturando a vida social na Amazónia e que são cada vez mais objecto de apropriação privada, facilitada pelos complexos mecanismos de protecção da propriedade intelectual e industrial, controlados pelas grandes empresas e longe das modos de vida das populações indígenas.

Uma activista da Amazónia equatoriana sintetizou o problena desta evidente usurpação, num debate sobre bio-pirataria: «não entendemos como uma coisa que utilizamos durante gerações se torna de repente propriedade privada e não a podemos usar mais». De facto, a utilização de milhares de plantas amazónicas tem vindo a ser patenteada por grandes empresas, sobretudo dos Estados Unidos. Os produtos obtidos são vendidos massificadamente sem qualauer benefício para as populações que realmente desenvolveram a sua utilização.

Antes do início do FSM, a rede Transform foi uma das promotoras do Fórum Mundial Ciência e Democracia. No debate a que assisti, sobre "Formas Emergentes de Luta pela Democratização da Ciência", discutiu-se a forma como o capital está a tomar conta da evolução científica, através do controle dos resultados da sua produção (registo de patentes, legislação sobre propriedade intelectual) e dos meios para a sua realização (através dos "donativos" ou financiamentos a laboratórios públicos): no capitalismo cognitivo, a ciência passou a ter intervenção directa na criação de valor e a inovação substituiu a reprodução do capital.

Mas a inovação também tem aberto caminhos para novas formas de activismo e a diversidade da investigação pode ser uma arma contra o controle do conhecimento. Os programas de educação massificada de adultos realizados na Índia ao longo de todo o século XX, com definição de programas de pesquisa científica adequadas aos problemas concretos da população e valorizadores dos conhecimentos tradicionais (na alimentação, produção agrícola ou gestão da água, por exemplo) constituem um caminho para que a ciência responda mais eficazmente às necessidades sociais.

Os xamãs da Amazónia também têm procurado novas formas de investigação, em que a ciência acrescenta conhecimento ao que os povos indígenas já produziam. Esta abordagem rejeita a categorização positivista, propondo o estudo da socio-diversidade contra o da bio-diversidade (que ignora as relações sociais) e rejeita a ideia do "participatismo", em que o conhecimento tradicional é convocado a dar contributos parcelares à ciência: na realidade, deve ser a investigação científica a reforçar o conhecimento que os povos indígenas da Amazónia (onde se falam 180 línguas) produzem sobre as suas próprias condições de vida.

Perto de Belém do Pará, a cidade de Icoaraci é conhecida como o centro da produção artesanal das cerâmicas tradicionais amazónicas. É uma cidade de uma miséria profunda, de casas construídas com precárias estruturas de cimento e madeira, onde poucas vezes se usam tintas e os esgotos escorrem pelas ruas mal cheirosas. O saneamento básico cobre cerca de 10% das residëncias de Belém e no resto do Estado do Pará o valor é ainda mais baixo. O Fórum Social Mundial está a decorrer num dos lugares mais pobres do planeta.

Os governos de esquerda da América Latina no Fórum Social Mundial

Mesmo sem a presença do anfitrião Lula, quatro presidentes de Repúblicas da América Latina juntaram-se num comício em Belém do Pará, à margem do Fórum Social Mundial, em que valorizaram os contributos do FSM para as lutas pelo socialismo e procuraram o apoio dos movimentos sociais de todo o mundo. Sobre o local e horário do evento, realizado sob forte protecção policial e militar, foram circulando sucessivos rumores que evitaram a afluência de um público massificado e apenas algumas centenas das cem mil pessoas que assistem ao Fórum estavam na assistência.

Rafael Correa foi o primeiro a discursar e em vinte minutos definiu todo um programa revolucionário. O presidente do Equador começou por criticar a "arrogância do consenso de Washington", partilhado por uma minoria de líderes e salientou o "momento mágico" que vive a política latino-americana, com a eleição de novos governos, de esquerda, que ninguém esperava há dez anos atrás, e que são a expressão da vontade dos povos e o resultado dos movimentos sociais.

Economista formado em Chicago, a principal referência teórica do neo-liberalismo nas últimas décadas, o "Chicago-Boy quer re-escreveu a lição", como Chavez viria a dizer, defendeu a redefinição do papel do Estado e a renovação da ideia de planeamento, lembrando que, actualmente, "os que mais planificam são os países ricos e as grandes multinacionais".

Correa apelou à articulação de forças nacionais e acções colectivas contra o capitalismo contemporâneo, onde o trabalho é um instrumento do capital e a competição assenta na precariezação das relações laborais, defendendo uma nova ênfase no valor de uso em detrimento do valor de troca e dando como exemplo a selva amazónica, "o mais precioso bem da Humanidade" e novos conceitos de desenvolvimento, assentes em novas arquitecturas regionais e novos processos de colaboração entre regiões. Segundo Correa, "o socialismo não questionou os grandes objectivos do capitalismo - massificar o consumo e produzir mais riqueza - e apenas os tentou atingir mais depressa", pelo que o socialismo do século XXI deve ser "evolutivo, adaptado às condições de cada sociedade, não-dogmático e eficaz".

Fernando Lugo, eleito há um ano presidente do Paraguai, também salientou que "a História dos nove Fóruns Sociais Mundiais corresponde a uma mudança profunda na situação política da América Latina: as lutas dos movimentos sociais têm sido o suporte da mudança, construída nas ruas, debaixo das árvores, nas lutas, nas eleições, com vitórias e derrotas". "O que conseguimos" - afirmou - "foi suficiente para derrotar o neo-liberalismo mas ainda não chega para construir a sociedade que a América Latina merece: para navegar na Amazónia é preciso paciência, mas na América Latina precisamos de impaciência para construir um novo continente. Um novo mundo, não só é possível, como se está a tornar real", concluiu.

Evo Morales não chegou a utilizar os vinte minutos previstos para cada orador para evocar "a defesa da terra", com o exemplo da Amazónia e dos povos amazónicos. "Não quero que me convidem, quero que me convoquem", esclareceu o presidente boliviano, que exigiu "justiça e humanidade em vez de ambição" e pediu aos movimentos sociais que “não o esqueçam”.

Hugo Chavez foi o últimos dos presidentes a falar, salientando que havia vinte minutos para um discursar e que é assim o socialismo. No entanto, ao contrário dos restantes, falaria durante quase cinquenta minutos, grande parte dos quais a evocar o legado de Fidel Castro e os encontros que foi mantendo nos últimos vinte anos com o líder cubano. Saudou os companheiros de mesa e evocou Tupac Amaru, o chefe índio que, nos momentos antes de ser esquartejado por quatro cavalos a mando dos colonizadores espanhóis, declarou com dignidade: Vou, mas um dia voltarei, feito milhões".? ?

Chavez foi o único a referir-se ao "genocida" que ocupou a Casa Branca nos últimos dez anos e que "saíu pela porta de trás, para o caixote de lixo da História", para desafiar Barack Obama a marcar uma efectiva mudança, libertando o território de Guantanamo para a tutela de Cuba ou retirando o seu exército do Equador. No entanto, esclareceu que "não temos "grandes expectativas" e apenas exigiu "respeito pela soberania venezuelana". O presidente da Venezuela lembrou que 300 anos de capitalismo provocaram fome, desigualdades, trabalho infantil, destruição da natureza e contaminação, salientando que estes problemas só se agravaram com o aprofundamento do capitalismo global, para defender a construção, com os movimentos sociais, de um novo socialismo: "não ha terceira via - ou capitalismo ou socialismo".

Tal como os outros presidentes, Chavez defendeu a importância dos movimentos sociais, porque "um novo mundo é possível, um novo mundo é necessário, um novo mundo está a nascer. O longo discurso - que fez alguns assistentes abandonarem o recinto antes do final - acabou com um grito de esperança: "Pátria, Socialismo ou Morte. Venceremos!"? 

A organização do encontro foi apoiada pelo PSOL e promovida pelo Movimento dos Sem Terra (MST), que não convidou Lula da Silva. No entanto, o presidente do Brasil havia de juntar aos outros quatro presidentes num comício nocturno, centrado na problemática da crise mundial, encarada como uma oportunidade para a construção de um novo modelo de desenvolvimento e uma nova sociedade. Nesse comício foram apresentadas medidas anti-crise em curso na América Latina, que incluem um significativo reforço dos investimentos público, nomeadamente nas áreas da habitação e energia, e a criação de um banco regional de investimento para apoio ao desenvolvimento.

Lula da Silva promoveria, no dia seguinte, um encontro com as associações que integram o Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, que reuniu cerca de 80 pessoas na sala de um hotel em Belém do Pará. O presidente do Brasil saudou a realização do Fórum e afirmou que a edição deste ano, que considerou melhor organizada e mais participada, «mostra a necessidade da sua continuidade e a importância da diversidade democrática». Lula esteve acompanhado por alguns membros do seu governo, como Dilma Roussef, que anunciou como a próxima candidata presidencial pelo PT.

O encontro começou com cinco breves intervenções, previamente seleccionadas, de representantes de organizações do Quénia, França, Chile, Índia e Cuba, às quais Lula foi respondendo num registo relativamente informal. O presidente brasileiro, que não tinha sido convidado pelo Movimento dos Sem Terra para uma sessão no dia anterior que reuniu outros quatro presidentes de repúblicas da América latina, valorizou as iniciativas que desencadeou para beneficiar os produtores agrícolas: Lula informou que 519 mil famílias foram «assentadas» no campo durante o seu governo, o que corresponderá a mais de metade dos assentamentos registados na história do Brasil, e referiu também a nacionalização de 43 milhões de hectares de terras (uma área muito superior à totalidade do território de Inglaterra, Itália ou Alemanha).

Lula abordou ainda a crise económica mundial, assumindo tratar-se de uma «oportunidade» para repensar os modelos actuais de consumo e desenvolvimento, no seguimento do que tinha sido defendido na véspera, no comício em que participou com Chavez, Morales, Lugo e Correa. Além de referir a criação de um banco regional de investimento na América Latina, o presidente brasileiro salientou os passos dados nos últimos anos na cooperação regional na região e a importância dos Fóruns Sociais para o aprofundamento dessas relações de cooperação, lembrando que, por vezes, há países que não podem enfrentar as grandes potências (e, em particular, os Estados Unidos) por causa dos financiamentos e ajudas financeiras que daí obtêm.

Lula explicou também o seu posicionamento em relação à crise actual, garantindo um reforço significativo do investimento público: «se a lógica empresarial diz que devemos ser prudentes nos investimentos, as preocupações sociais exigem o seu reforço», adiantou. O ex-sindicalista lembrou ainda que, apesar da crise, o Brasil não entrou em colapso, ao contrário do que tinha acontecido, por duas vezes, durante os anos 90, lembrando «os yuppies desses tempo, que nem sabiam localizar o Brasil no mapa mas davam palpites sobre o que o país devia fazer» e os países que defendiam o livre comércio quando a situação era boa e agora defendem o proteccionismo.

Nesta reunião, o presidente brasileiro acabaria por fazer a sua primeira declaração pública sobre a sua possível  sucessão, apresentando Dilma Roussef como a próxima candidata presidencial pelo PT. Além de Lula, Dilma seria a única pessoa do governo a intervir na reunião, apresentando uma iniciativa que está a ser preparada com vista à revisão da regulamentação da actividade dos órgãos de comunicação social, incluindo os meios independentes.??O Conselho Internacional é o organismo que tutela e coordena o Fórum Social Mundial, com cerca de uma centena de elementos, onde se incluem algumas personalidades que estiveram na origem da criação do Fórum e alguns movimentos sociais. O PT, ou organizações que lhe são próximas, controla cerca de um terço dos integrantes deste órgão. Na reunião de Belém, Lula garantiu todo o apoio para tornar possível a realização do FSM nos Estados Unidos (onde há problemas com os vistos de entrada no país) ou no Médio Oriente (onde se colocam questões de segurança).

A Crise Mundial no Fórum

A crise internacional foi um dos principais temas em discussão no Fórum Social Mundial. No último dia de debates, coube-me apresentar uma comunicação sobre o tema, com o economista venezuelano Eduardo Lander, num seminário promovido pela Transform. Os cartões de identificação utilizados pelos participantes no Fórum permitiram-me identificar pelo menos quinze nacionalidades diferentes entre os participantes no debate: 60 pessoas, na sua maioria jovens (da Coreia do Sul, Vietname, Índia, Nepal, Estados Unidos, Brasil, Venezuela, Finlândia, Grécia, França, Alemanha, Suiça, República Checa, Itália), encheram uma pequena sala e quase metade teve que se sentar no chão.

Edgard Lander abriu o debate referindo que a época que vivemos é a do fim do neo-liberalismo, que resultou de uma hegemonia política e militar dos Estados Unidos e conduziu a uma exploração de recursos que levou o planeta até muito perto dos seus limites. Neste sentido, o colapso do capitalismo pode ser também o colapso da vida, o que exige um novo controle do conhecimento sobre a utilização dos recursos: soluções económicas e tecnológicas que mantenham os actuais paradigmas e conceitos de desenvolvimento e consumo só servirão para agravar a crise. Importa construir uma nova sociedade, que deixe de analisar as questões económicas sem pensar nas consequências sociais e culturais.

Na minha intervenção, apresentei a situação actual como uma crise de sobre-produção do sistema capitalista, caracterizada por uma tendência para a descida do peso dos salários no rendimento global, que conduziria a uma expansão do crédito ao consumo e ao sobre-endividamento das famílias. Esse processo foi acompanhado pela liberalização dos mercados financeiros internacionais e pela privatização dos fundos de pensões, alimentando um processo especulativo que conduziu à actual crise. Por outro lado, a liberdade de circulação de capitais facilitou a deslocação dos investimentos produtivos para os locais onde a protecção social e laboral é mais débil, criando condições para uma precariezação global do trabalho.

Os contributos de Lander e as sugestões para alguns caminhos alternativos que adiantei (investimento público, políticas de pleno emprego e habitação, desmercantilização de serviços públicos e desenvolvimento de redes de economia solidária e cooperativismo) suscitaram um interessante debate, com contributos muito distintos, resultado natural da diversidade de situações nacionais vividas pelos assistentes.

A crise internacional e a luta anti-capitalista tinham também sido o mote para a intervenção de Olivier Besancenot, dois dias antes, na Tenda Irmã Dorothy, uma activista da defesa dos povos amazónicos que seria assassinada. O líder do Novo Partido Anti-Capitalista francês explicou que pretende reunir forças políticas diversas para encontrar alternativas ao neo-liberalismo e Heloísa Helena, do PSOL, que promoveu a iniciativa, lembrou que esta crise não é ocasional mas uma consequência inevitável do desenvolvimento capitalista.

Na noite de sábado, que antecedeu o encerramento do Fórum, ocorreu num hotel de Belém um encontro entre delegações do Partido da Esquerda Europeia e do Fórum S. Paulo, que reune formações políticas de esquerda do continente americano. Foi aqui salientada a urgência de se encontrarem caminhos comuns de combate à crise e definidos alguns temas prioritários de trabalho conjunto, que deverão passar pela discussão de novos modelos de desenvolvimento, pelo apoio à causa da Palestina e pela questão da emigração, que tenderá a ganhar peso político com o aprofundamento da crise, abrindo caminho ao populismo de direita.

Dia da Alianças encerrou Fórum Social Mundial

O Fórum Social Mundial terminou em Belém do Pará com o Dia das Alianças, um conjunto de reuniões alargadas à procura de convergência para acções comuns. O Fórum reivindicou a urgência de se encontrarem alternativas ao capitalismo, porque um outro mundo é possível e necessário.

Durante a manhã realizaram-se assembleias sectoriais temáticas, com divulgação de algumas conclusões dos debates, e na parte da tarde realizou-se a Assembleia das Assembleias, com apresentação de algumas campanhas globais a lançar em 2009.

O Fórum terminou com a mesma alegria festiva com que tinha começado, apesar do evidente cansaço dos participantes: foram muitos os quilómetros percorridos nos recintos da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade Federal Rural da Amazónia (UFRA), à procura de salas mal sinalizadas e de debates cuja programação era sucessivamente alterada, quer nos horários, quer nos locais, sob um intenso e húmido calor tropical.

Para se chegar às duas universidades que acolheram o Fórum foi construída uma estrada, permanentemente congestionada, que atravessa o bairro da Terra Firme, um dos mais pobres e perigosos de Belém do Pará, esta semana permanentemente vigiado por forças policiais e militares fortemente armadas. Para evitar este congestionamento, os participantes tinham à disposição pequenas e precárias embarcações que faziam a ligação entre os dois recintos num percurso de 15 minutos pelo Rio Guamá.

Apesar das dificuldades de mobilidade e de alojamento na cidade, a generalidade dos participantes mostra-se satisfeita com o Fórum, pela qualidade dos debates, pela oportunidade do estabelecimento de contactos, pela criação de redes para acções colectivas: o Fórum é um espaço de aprendizagem e acção que parece ter cumprido os seus objectivos e onde se reivindica uma urgência: a de encontrar rapidamente modelos alternativos de sociedade, que defendam as pessoas e respeitem os ecossistemas. A crise global foi aqui entendida como uma oportunidade: se não for a esquerda a apresentar rapidamente soluções mobilizadoras, outros o farão.

A economia solidária foi um dos temas mais presentes nas discussões sobre as alternativas para uma sociedade melhor: o cooperativismo, o associativismo e a auto-gestão devem ser ferramentas para disputar o controle dos meios de produção e combater a hegemonia do capital. No documento distribuído após a Assembleia dedicada a este tema no último dia do Fórum, foi apresentada uma Campanha Internacional pelas Compras Éticas e o objectivo de criar uma articulação de organizações ligadas às tecnologias de comunicação que valorize os intercâmbios solidários e ajude a promover a criação de laços cada vez mais fortes entre economia, sustentabilidade e finanças.

Numa altura em que a Europa, com Sarkozy e Berlusconi, dá sinais de querer erguer uma fortaleza contra a imigração, o Fórum também discutiu formas de cooperação e solidariedade Norte - Sul, porque a crise agravará o desemprego e a pressão populista da extrema direita sobre os imigrantes. Em ano de eleições europeias, algumas associações, incluindo a Solidariedade Imigrante, lançaram uma proposta de jornada de acção, a realizar em Maio, na Europa, contra o Pacto de Imigração e a Directiva de Retorno e pela regularização de indocumentados. O tema da imigração também tinha sido abordado no encontro de delegações do Fórum São Paulo e do Partido da Esquerda Europeia, tendo o SOS-Racismo, informalmente presente na reunião, estabelecido contactos para o desenvolvimento de acções comuns com organizações da América Latina.

Na assembleia onde se discutiu a relação entre crise, globalização e trabalho reivindicou-se um novo paradigma de sociedade, que não se limite a exigir mais regulação mas que discuta também os objectivos desses processos regulatórios: um novo paradigma de sociedade, com uma nova relação com a natureza, valorização do valor de uso em relação ao valor de troca, democracia e multiculturalidade enquanto ética do bem-comum: um novo conceito de desenvolvimento, que exige uma resposta cidadã global e uma nova relação de forças na política e na sociedade. Como afirmou Walden Bello, da «Focus on Global South», «é necessária a radicalização da imaginação por um mundo melhor».